Dante contra o Papa. Parte II. A ira de Dante.

Dante contra o Papa. Parte II. A ira de Dante.

Dante contra o Papa. Parte II. A ira de Dante.

Dante nunca mais retornaria a Florença…

Cavalgando de volta, após o encontro com o Papa, teve notícias, em Siena, dos assassinatos e da destruição em Florença.

Se voltasse, poderia ser assassinado também. Sua esposa, Gemma Donati, por ser prima de Corso Donati, fora poupada, mas ele, com certeza, não seria.

Continuando sua cavalgada, agora errante, pensou em tudo o que ocorrera.

Descobrira o verdadeiro culpado pela desgraça ocorrida em Florença.

A biógrafa de Dante, Barbara Reynolds, narra assim essa descoberta:

“Mas agora ele via claramente que o real vilão fora o Papa Bonifácio, que tinha tudo planejado e fomentou intrigas para ganhar o controle de Florença, chegando a impedir Dante, o mais capaz dos deputados, de manter os guelfos brancos prevenidos. Um ódio feroz, nunca extinto, ardeu no coração de Dante e estimularia a grande obra que ele viria a escrever.”

Foi, então, pela Ira muito mais do que por qualquer outro motivo que Dante compôs a Divina Comédia.

No Canto XIX, na terceira vala do oitavo círculo do inferno, onde são queimados os papas simoníacos de cabeça para baixo, Dante se confunde e acha ter encontrado o Papa Bonifácio.

“Já estás aí plantado, foi seu grito,
Bonifácio, já estás aí plantado?
De vários anos enganou-me o escrito!

“Das riquezas já estás saciado, pra que ultrajaste a formosa mulher, após tê-la com dolo conquistado?

E eu fiquei como quem por não a entender,
Hesita ante a pergunta que lhe é posta: se envergonha e não sabe responder.

Dize logo, do mestre foi a proposta :
Não sou aquele, não sou quem tu crês.
E essa mesma então foi minha resposta.”

Na verdade, como demonstram os versos acima, não é o Papa Bonifácio que está “plantado”, mas outro Papa. É o Papa Nicolau II da família Orsini que distribuía favores e riquezas a seus familiares.

Dante, neste círculo, investe contra os papas simoníacos e guarda sua vingança contra Bonifácio VIII para outro momento na Divina Comédia.

Interessante acrescentar que muitos sempre afirmaram ser Dante um poeta que seguia totalmente a ortodoxia católica.

Já um intelectual como Giovanni Papini dizia que ele estava “fora das categorias fechadas, acima das divisões contingentes, além do sim e do não”.

Acreditamos que Papini tenha razão, pois descrever cenas de amor no inferno e de ira no Céu não é exatamente ser ortodoxo.

No inferno, ele narra o amor entre Paolo Malatesta e Francesca da Rimini que o fez cair no chão: “E caí como corpo morto cai”(Canto V, segundo círculo do inferno).

E é no Paraíso que Dante demonstra toda sua ira.

Quando tudo já parecia resolvido e os cantos de triunfo amoroso mais doces já eram ouvidos no Céu, eis que Dante despeja toda sua iracúndia contra o Papa Bonifácio.

Por intermédio da fala de São Pedro, ele denuncia Bonifácio VIII e dá vazão à sua cólera. Seguem os versos:

“Aquele lá que usurpa O POSTO MEU, O POSTO MEU, O POSTO MEU, ante a presença do Filho de Deus…

Fez do meu cemitério sua cloaca de sangue e de fedor, onde o perverso desejo de quem ali se aplaca…”

O Vaticano, sede da Igreja Católica e lugar onde está enterrado São Pedro, foi transformado por Bonifácio VIII, o usurpador, num esgoto de sangue e podridão.

Podemos não saber, espiritualmente, onde estão Dante e o Papa Bonifácio na eternidade, mas, na Terra, soubemos a posição que cada um ocupou e quem realmente venceu.

P.S.: 1) Ao longo da história da Igreja Católica, houve papas corruptos e santos. A Igreja Católica sempre se considerou santa e pecadora. Santa porque seu fundador é Nosso Senhor Jesus Cristo e pecadora, pois é composta de homens;

2) Dante morreu como fervoroso católico e, apesar de ter atacado e denunciado os papas que traíram Nosso Senhor Jesus Cristo, continuou fiel à Igreja, ao contrário de Lutero, por exemplo, que preferiu abandoná-la;

3) Bonifácio VIII era um dos homens mais poderosos do mundo naquele tempo. Havia uma ordem mundial em que ele seria o representante do Cristo na Terra.
No entanto, como foi demonstrado, ele era um agente do diabo, “uma fonte de satisfação para lúcifer;

4) Dante não se rendeu a esse governante mundial e a sua ordem global que contava com o apoio de outros governantes poderosos;

5) Qualquer ordem mundial, de ontem e de hoje, que vise somente o poder e o controle da humanidade é fonte de satisfação diabólica.

Para ler Dante contra o Papa, parte I, clique aqui.

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Luís Fernando Pires Braga

Advogado.

Recent Comments

  • ODILON ROCHA

    Excelente.
    É possível que a situação criada pela pandemia, inusitada, malgrado o pânico e a histeria em grau nunca visto, com governantes transformados em verdadeiros ditadores, poderá servir de freio ao projeto de um governo mundial.

  • Luís Fernando

    Caro Odilon, muito obrigado pelo seu comentário.

    A resposta deve remontar à primeira parte desse nosso escrito, onde temos um Dante que rejeitou a ajuda oferecida pelo Papa Bonifácio.

    Ou seja, Dante demonstra que não aceita o auxílio de um poder tido como mundial, o mais estabelecido e respeitado no ocidente.

    Ele sabia que havia um preço: submeter-se ao poder político do papa.

    O que ocorre, nos dias de hoje, é exatamente o contrário…governos locais estão de acordo com as prescrições globais de uma ONU que, por sua vez, está a serviço de um poder misterioso que tudo quer controlar…

    Dante, ao contrário, queria sua Florença longe de qualquer influência externa….

    Um dos motivos da sua ira: o desrespeito à contituição de Florença!

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