Do “Homem Econômico” ao “Homem Tecnológico”. Reflexões em Dorothy L. Sayers*

Do “Homem Econômico” ao “Homem Tecnológico”. Reflexões em Dorothy L. Sayers*

Do “Homem Econômico” ao “Homem Tecnológico”. Reflexões em Dorothy L. Sayers*

Dorothy L. Sayers, prevendo o grande estrago que a Segunda Guerra Mundial produziria não só em termos econômicos, mas em todos os aspectos da vida, recomendou em 1o de dezembro de 1939: “Vamos tentar acelerar o espírito criativo que permite ao homem erigir […] sistemas à luz de suas necessidades espirituais, intelectuais e sociais. Almejamos a Ressurreição da Fé, a Retomada do Aprendizado e a Reintegração da Sociedade”.

Ela temia que a excessiva preocupação com a economia, aquilo a que ela chamou de “grande obsessão econômica”, diminuísse a importância de todos os outros pontos na reconstrução social pós-guerra e na vida íntima do ser humano: a fé, a cultura e a solidariedade.

“A grande maioria das pessoas na Europa aceitava – e de fato ainda aceita – a autoridade da Economia como absoluta, e considerava a História Econômica como sendo a única história “real” do universo”, advertira Sayers.

Ou seja, a história da humanidade, aos olhos da maioria das pessoas e incentivada por vários intelectuais, é somente a história econômica do progresso e da busca do conforto material. A Economia passou a ser, então, não uma ciência como as outras, mas uma ciência total, abarcando a totalidade do humano.

Seria, como de fato aconteceu, o triunfo do “homem econômico”, o humanismo mais reducionista de todos, aquele que tem a economia como ético-normativa a pautar toda atividade humana. Sayers explicou: “O Homem Econômico é a nossa mais recente concepção, mais simplificada e menos humana, de nós mesmos – essa unidade destituída de humor, paixão e sexo em meio a um vasto sistema financeiro.”

No mundo pós-pandemia, a “grande obsessão econômica” retornou por causa da destruição econômica ocasionada por excessivos lockdowns e, agora, da guerra na Ucrânia. Se a economia é tudo, perder tudo materialmente será perder o sentido da vida.

Praticamente, só a economia pautava os interesses humanos no século XX, mas, hoje, além de continuar determinando, trouxe um agravante consigo: o advento do “homem tecnológico”, a interação máquina/homem, com a dependência, quase total, deste para ela, como se fosse uma droga a remediar os males do indivíduo.

“Um abismo chama outro abismo”, diz o salmista. Da obsessão econômica caminha-se para a tragédia econômica. A estratégia de quem comanda o mundo para anestesiar a fúria humana de ter perdido a propriedade, a liberdade e a dignidade é o “mundo virtual”. Por isso mesmo, o falso slogan dos “senhores do planeta Terra”, hoje, faz tanto sentido: “você não terá nada, mas será feliz”. Viverá feliz, sem nada, na ilusão do “mundo virtual”.

Dessa forma, caso não reaja a essa situação, o ser humano com a mente tomada pelo meio tecnológico, fruto da grande tragédia econômica de não mais poder ter nada, nem exercer a plena cidadania, acabará consumindo a si mesmo até chegar ao desespero e à aniquilação.

A saída disso, Dorothy L. Sayers a ofereceu no livro “Por onde começar”, vejamos:

“A coisa mais notável dessa gradativa evolução é que tanto mais o homem compreende, menos ele entende o propósito da existência e menos importância detém no esquema das coisas(…)
Se quisermos pensar a sério, devemos pensar nós mesmos, ou outros pensarão por nós. Só há duas maneiras de mover o mundo: a maneira do Evangelho e a maneira da Lei, e se abrirmos mão de um teremos de nos submeter à outra. Precisamos encontrar, de alguma forma, o princípio integrador de nossas vidas(…)”

É necessário, então, uma conversão na vida do homem para mover o mundo na direção certa, reunindo, em suas devidas proporções, a religião, a economia, a cultura, a tecnologia, etc. Se não houver esse princípio integrador da vida, restará somente, para o homem comum, a tragédia do “mundo virtual”. Ou seja, sem metanoia**, só restará o metaverso!

P.S.: *Dorothy L. Sayers foi uma escritora inglesa cristã, amiga de C.S. Lewis e Tolkien, com trabalhos populares e acadêmicos de grande repercussão literária.

**Referimo-nos à metanoia como um processo de conversão espiritual, moral e intelectual.

Leia também:

Tolkien e C.S. Lewis contra a tecnocracia

O “novo normal”. Política e ética. Reflexões em Aristóteles, T.S Eliot, Thomas More e Rousseau

Publicado no blog Guedes & Braga

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# homem tecnológico

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Luís Fernando Pires Braga

Advogado.

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